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QUANDO SE PINTA E BUSCA O REAL?
3 MAI a 4 JUN | por Ângela Mendes Ferreira | Retratos Pintados
“Que estranhas cenas descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós” (PLATÃO – A República).
Esta mostra reúne fotografias recolhidas durante a construção da tese de mestrado para Hogeschool voor de kunsten Utrecht e corresponde a um ensaio sobre uma parte do estudo realizado a propósito da identidade indígena das Tribos do Ceará e a sua relação com a Fotografia e o Retrato. Partindo desse universo tentei fotografar também os retratos dos inúmeros personagens do Estado do Ceará que, habitando o interior das casas, povoam a sua memória, na forma da alegria e da tristeza, do medo e da felicidade, da infância e da velhice e até da morte, no seu mais íntimo espaço. Os retratos foram recolhidos nas povoações e aldeias do Estado do Ceará aqui representado pelas tribos Pitaguary, Tapeba e Jenipapo Kanindé assim como os retratos de um povo Cearense que é também afinal um povo caboclo com profunda influência indígena.
Cada fotografia traz uma, ou muitas das palavras que representam um retrato, perpetuado aqui pelos traços da Pintura. Por isso se dá a estes retratos o nome de retrato Pintado. Cada retrato cobre em silêncio a espiritualidade de um povo. Como se nos levasse daqui para dentro da religiosidade e adoração de um povo brasileiro, com os aromas e a luz que é descrita na memória mais exposta ao tempo.
Aqui, a antiga técnica de retratação e valorização da imagem individual e/ou familiar é contada sob o ponto de vista da pintura que se dispõe a mostrar da melhor maneira as fisionomias, os traços psicológicos e os anseios de seus clientes. Desde o final do século XIX, alguns artesãos decidiram oferecer um elemento a mais à nascente técnica fotográfica. Literalmente, tratava-se de um colorido especial, um retoque artesanal que, com o passar do tempo, também acumulou a função de restaurar os primeiros retratos. Simbolicamente, trata-se de uma reprodução e uma fantasia em torno da memória. Seja ela, uma memória individual ou recontando momentos significativos da vida familiar, sobretudo, seus rituais de passagem, por vezes até com uma certa tonalidade fictícia. Retratos pintados são por isso um projecto que fala sobre Fotografia. Na sua essência cruza a linguagem conceptual e artística de um planeta habitado por uma infinidade de imagens que nos levam a reflectir sobre o real e a sua relação com a Fotografia.
Fotos são um meio de aprisionar a realidade, entendida como inacessível; de fazê-la parar. Ou ampliam a realidade, tida por encurralada, esvaziada, perecível, remota. Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se imagens. Possuir o mundo na forma de imagens é re-experimentar a irrealidade e o carácter distante do real. Isto significa que as pinturas apostas no retrato engrandecem a imagem. A diferença entre a foto registo e a foto pintada resida no facto de que esta ultima resume as imagens. Uma simples foto, ao contrário de uma pintura, implica a existência de outras. Aquilo que a fotografia fornece não é apenas um registo do passado mas um modo novo de lidar com o presente, como atestam os efeitos dos incontáveis biliões de documentos fotográficos contemporâneos. Aquelas pessoas não me são apresentadas como um outro que aconteceu, mas como uma experiência que me está a acontecer. E isto está nas imagens e no texto que não se lê mas que passa pelos sentidos mesmo antes de alguém nos contar a história. Tornar-se-ão para mim representações? Ou talvez seja por estas imagens terem um enorme contra campo psicológico, onde há espaço para o espectador entrar? Aquelas imagens parecem não ser só fotografias de identificação, elas dirigem-se a nós e parece que nos olham também, talvez porque nos certificam da existência daquelas pessoas e daquele acontecimento e surgem-nos como disponíveis para uma experiência. O problema está na susceptibilidade de ser um experiência instrumentalizada pelos sentimentos que tão facilmente podem ser evocados.
Pretende esta mostra narrar a assumida ou recriada ligação do homem com a Fotografia, por vezes sagrada, a possível inocência do olhar, a hipotética alegria, o possível amor ou a surpreendente interrogação acerca do tempo. Quis através destas imagens permitir uma reflexão sobre as emoções, os lugares estranhos, e a paisagem misteriosamente invulgar que nos faz a alma. Foi assim que entrei pelo mistério dos retratos de um povo que povoam a sua memória e nos conduzem para um plano de discussão em torno da imagem. A Fotografia nestes retratos vem perpetuar os afectos que nunca são iguais e separáveis depois de alguma vez tomarem forma. É pois um elogio à Fotografia e ao Retrato, no registo da luz e dos conceitos. Representa uma viagem para dentro da Fotografia e sobre o que ela representa. Dentro destes retratos não ignorei o oculto, o corpo que se escondeu na aparência do visível: procurei figurar o que não se vê, nem ouve, nem palpa. E por isso é também uma reflexão sobre o Real.
ÂNGELA MENDES FERREIRA nasceu a 25 de Outubro de 1975, é portuguesa, reside em Braga e trabalha no Porto. É Mestre em Multimedia e Novas Tecnologias pela Escola de Belas Artes de Utrecht (Holanda) e Licenciada em Direito pela Universidade do Minho em Braga, onde exerceu Advocacia e cursou Fotografia. Recentemente ganhou o First prize of the International Photography Contest of Buenos Aires- tendo sido o seu trabalho nomeado como Fotógrafa do Ano para a categoria de Emoções da BBC. A sua obra foi inserida em várias exposições individuais e colectivas e publicou uma obra de Fotografia e Texto sobre a Índia portuguesa e sobre os retratos pintados dos índios Brasileiros, designada “Painted Pictures”, tendo este sido exposto nos Encontros da Imagem, Braga. Optando por uma carreira no domínio da Fotografia, realizou no ano de 2003, como bolseira da Embaixada Real dos Países Baixos, um mestrado europeu em Multimedia e Tecnologias na área da Fotografia Digital na Utrecht School of Arts, Holland. Como dissertação de mestrado, estudou as comunidades indígenas do Estado de Amazonas e Ceará, um estudo antropológico e imagético sobre a identidade indígena. Em paralelo colaborou como docente na Faculdade de Comunicação e Imagem da Grande Fortaleza-Brasil nas áreas de Fotografia e Estética de Arte. É Docente/Directora do Curso de Fotografia da Escola Superior Artística do Porto. Tem o seu trabalho representado nas galerias Mário Sequeira em Braga, Mosteiro de S. Martinho de Tibães-Braga, Museu da Imagem e do Som de Fortaleza (Brasil), Museu de Arte contemporânea - Dragão do Mar (Brasil) e Fotographic Museum of Amsterdam (Holanda).
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