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RELAÇÕES ENTRE O ESTADO NOVO E O III REICH - TURISMO NAZI EM PORTUGAL (1935-39)
Sexta, 9 MAI | 21h45 | I Conferência do ciclo | orador Prof. Mário Matos
Os «cruzeiros atlânticos» da organização de lazeres Força pela Alegria
Entre 1935 e 1939, Lisboa assim como os arquipélagos da Madeira e dos Açores constituíram um destino de férias privilegiado para cerca de 20 mil alemães que, à custa das chamadas «viagens atlânticas» tuteladas pela organização de lazeres nazi Kraft durch Freude («Força pela Alegria»), tiveram oportunidade de usufruir, pela primeira vez, de paisagens e espaços culturais – vistos à luz da época – tão longínquos e tão «exóticos». Estas viagens, então propagandeadas como «cruzeiros para operários», apesar de à primeira vista meramente turísticas e politicamente insuspeitas, representaram para o regime nacional-socialista, conforme se tentará demonstrar, quer um importante veículo para o enquadramento doutrinário e a manutenção da paz social ao nível da sua política nacional quer uma cartada diplomática não menos significativa para os seus propósitos em termos de política internacional. Por via de uma análise da hábil estratégia de encenação e mediatização do encontro entre dois povos que, nas palavras do então embaixador alemão em Lisboa von Hoynningen-Huene, estariam, «em defesa do Ocidente», «unidos na luta contra a desordem e a destruição», nesta palestra apresentar-se-ão não só as hetero-imagens dos portugueses projectadas pelos «escrivães», fotógrafos e realizadores de filmes ao serviço do regime nazi, mas também as repercussões desse fenómeno da «Força pela Alegria» - uma espécie de turismo de massas avant la lettre – para a política do Estado Novo e seu impacto mediático junto da opinião pública portuguesa.
MÁRIO MANUEL LIMA DE MATOS, nasceu em Estarreja, mas fez todo o seu percurso escolar (primário e secundário) na República Federal Alemã. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Franceses e Alemães), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1989) com Especialização em Estudos da Tradução: Português – Alemão, pela mesma universidade, em 1991. Defendeu mestrado em Estudos Alemães: Literatura e Cultura, pela Universidade Nova de Lisboa (1997), com uma dissertação sobre As viagens marítimas da organização nazi Kraft durch Freude a Portugal (1935-1939): turismo, literatura e propaganda e doutoramento em Ciências da Cultura (Área de Conhecimento: Cultura Alemã), pela Universidade do Minho (2007), com uma dissertação intitulada de Postigos para o Mundo: reflexões em torno do turismo e dos livros de viagens na RDA (1949-1989/90). Lecciona na Universidade do Minho desde 1992, tendo a seu cargo as disciplinas da área de Cultura Alemã nos cursos de licenciatura em Línguas e Literaturas Europeias e em Relações Internacionais. As suas investigações e publicações incidem principalmente sobre o tema da viagem e das representações interculturais nos diversos media impressos e audiovisuais (lista de publicações em www.ilch.uminho.pt/deg). É membro do conselho de redacção da RUNA-Revista Portuguesa de Estudos Germanísticos e associado da Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos (APEG) e da Associação Portuguesa de Literatura Comparada (APLC).
SOBRE O CICLO DE CONFERÊNCIAS - RELAÇÕES ENTRE O ESTADO NOVO E O III REICH Apesar de o regime salazarista ter fomentado a auto-imagem de um Portugal «orgulhosamente só», posicionamento esse que durante a II Guerra Mundial se teria manifestado sob a forma de uma ambígua «neutralidade», é inquestionável que no auge do advento do(s) fascismo(s) europeu(s) o Estado Novo manteve relações mais ou menos intensas quer com as democracias ocidentais, mormente com o tradicional aliado inglês, quer com os países com governos de cunho nazi-fascista. As multifacetadas relações entre o Estado Novo e o Terceiro Reich, sobretudo durante os anos anteriores à guerra em que se assistiu a uma solidificação dos respectivos regimes ditatoriais assente em diversas «afinidades electivas» ao nível ideológico, constituem porém um capítulo ainda relativamente pouco conhecido das memórias colectivas portuguesa e alemã. Este pequeno ciclo de conferências – para já limitado a três contributos de investigadores radicados em Braga, mas que futuramente se desejaria ver alargado a contribuições transregionais e transdisciplinares – pretende assim assinalar a existência de múltiplas «zonas de contacto» entre o Estado Novo e o Terceiro Reich que, embora não abonando a favor da projecção de uma auto-imagem cândida de um Portugal salazarista completamente adverso aos extremismos nazi-fascistas, também fazem (ou deveriam fazer) parte da memória colectiva de portugueses e alemães. Nestas primeiras conferências serão abordadas três temáticas distintas. Enquanto que as duas primeiras (9 de Maio e 6 de Junho) estão intrinsecamente interligadas pelo facto de se ocuparem ambas de elementos basilares de um inquestionável processo de aproximação entre o Estado Novo e o Terceiro Reich nos tempos anteriores à guerra, mormente pela instituição de contactos oficiosos que visam uma estreita cooperação político-cultural ao nível de organizações de lazer e turísticas («Força pela Alegria» e «Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho»-FNAT) e juvenis («Juventude Hitleriana» e «Mocidade Portuguesa»), a terceira palestra (4 de Julho) aponta para o complexo tema das intricadas relações internacionais e das intensas campanhas de propaganda disputadas por ambas as frentes beligerantes durante a Segunda Guerra Mundial, tema esse que na altura dividiu profundamente a opinião pública portuguesa em duas facções: «pró-aliados», de um lado, «germanófilos» ou «pró-eixo», do outro. Essa problemática será analisada, a título exemplar, partindo-se das considerações diarísticas (não publicadas) de um dos mais proeminentes opositores ao regime salazarista e dos mais acérrimos germanófobos portugueses da época, a saber: o General Norton de Matos.
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